O conceito de Alienação

LEÔNCIO BASBAUM*

6a436fe668b708b07c30081c1e4b8c5b2e8f35fcA alienação é, ante de tudo, uma forma de relação entre os homens e, ao mesmo tempo, entre os homens e determinados objetos ou coisas que lhes são exteriores. Essa forma de relação não é natural. Ela surge em um determinado momento, no processo do desenvolvimento histórico das sociedades humanas. Embora esse desenvolvimento seja criação e exteriorização dele próprio, o homem é profundamente afetado pelo processo: aliena-se.

O termo alienação, originariamente – e ainda hoje –, era um termo da Psiquiatria que designava uma forma de perturbação mental, como a esquizofrenia – uma perda de consciência ou de identidade pessoal… Do ponto de vista econômico-social, é a perda da consciência de si, em virtude de uma situação concreta. O homem perde sua consciência pessoal, sua identidade e personalidade, o que vale dizer, sua vontade é esmagada pela consciência de outro, ou pela consciência social – a consciência do grupo. É uma forma de para-consciência, ou seja, uma consciência particular incompleta, pela qual o homem perde parcialmente ou totalmente sua capacidade de decisão. É ainda sua integração absoluta no grupo: ele massifica, passa a pertencer à massa e não a si mesmo.

Diz-se ainda que o homem está alienado quando deixa de ser seu próprio objeto para se tornar objeto de outro. Deixa de ser algo para si mesmo. Sua vontade é assim a vontade de outro: ele é coisificado. Deixa de ser homem, criatura consciente e capaz de tomar decisões, para se tornar coisa, objeto.

Com o advento da máquina, o trabalho tornou-se duplamente alienante: à máquina e ao dono da máquina. No período em que vigorava ainda o regime de trocas, o homem, para suprir suas necessidades elementares, devia produzir não apenas aquilo de que necessitava, mas também as necessidades do outro, para qual ele era por sua vez o outro. Era ao mesmo tempo sujeito e objeto. Poderíamos dizer que se tratava de uma alienação parcial.

A introdução da máquina no sistema de produção subverteu totalmente esta situação. A máquina tem esta particularidade: substitui com eficiência o esforço físico humano, mas não dispensa o homem: é sempre necessário para movimentá-la, fazê-la andar corretamente e detê-la no momento preciso.

O homem se torna parte dela, como um parafuso ou uma engrenagem. Não é o homem que produz, é a máquina. O home limita-se a fazê-la funcionar. O aperfeiçoamento das máquinas, à medida que reduz o esforço físico do homem, mais reduz sua participação e, em consequência, mais reduz sua intervenção consciente no trabalho. A máquina moderna dispensa a inteligência e a consciência humana, e o anula como homem. Este se torna uma peça de engrenagem cada vez mais insignificante.

Nesse sistema mecanizado de produção, o homem não mais produz o que quer. Limita-se a fazer a máquina funcionar. Ignora o destino do seu produto, que não lhe pertence e, quase sempre, nem sabe para que serve. Recebe apenas um salário em troca da sua força de trabalho, o qual lhe permite recuperar as energias gastas, recompor seu organismo, para que amanha possa novamente vendê-las ao dono da máquina. Ele se coisifica, anula-se nesse processo: é uma máquina, ou um apêndice da máquina, uma estranha máquina cujo óleo combustível é constituído de proteínas. Não é mais um homem com capacidade de pensar, agir, tomar decisões. É apenas uma peça de engrenagem que, quando gasta pelo uso, pode ser substituída.

Para o dono da máquina, ele não passa disso mesmo: uma peça da máquina que deve ser lubrificada diariamente. Não, é claro, como os mesmos cuidados, pois uma máquina custa dinheiro enquanto o homem nada custa: se adoece ou morre, é facilmente substituído pelo exército industrial de reserva, a percentagem fixa de desempregados em cada nação capitalista que impede a luta dos salários.

Assim, o homem, assalariado pelas circunstâncias, não mais se pertence. Como parte da máquina, pertence ao patrão. Sua atividade tornou-se inconsciente e irracional e tanto mais quanto mais se aperfeiçoa a máquina: tornou-se um objeto que nem sequer necessita pensar.

E isso vale não apenas para a fábrica mas para toda a atividade humana nesse processo de mecanização crescente que é o sistema capitalista de produção: o datilógrafo diante de sua máquina de escrever, o contador diante de sua máquina de calcular. Num caso, como noutro, o produto não é determinado pelo homem que trabalha mas pelo dono da máquina.

O ‘amor ao trabalho’ transforma-se numa expressão hipócrita e cínica, pois nada significa e não tem outro objetivo senão condicionar o homem, desumanizando-o, tirando-lhe a capacidade de optar em sua vida. Como pode amar o trabalho um homem que passa 8 ou 10 horas por dia apertando o mesmo pedal ou o mesmo botão, ou escrevendo ‘prezado Sr.’ mil vezes por dia? Nessas condições o trabalho torna-se realmente maldição, e essa maldição, esse trabalho maldito, é obra do capital, da propriedade privada.

* Fonte: BASBAUM, Leôncio. Alienação e Humanismo. São Paulo: Símbolo, 1977, pp. 17, 24-26.

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