Marx e Proudhon

MIKHAIL BAKUNIN*

Mikhail Bakunin (1814-1876)
Mikhail Bakunin (1814-1876)

… Não há nenhuma dúvida que na crítica impiedosa que [Marx] fez a Proudhon há muito de verdade… Este parte da idéia abstrata do direito; do direito passa ao fato econômico, enquanto que o Sr. Marx, contrariamente ao Proudhon, exprimiu e demonstrou a verdade indubitável, confirmada pela história passada e contemporânea da sociedade humana, dos povos e dos Estados, que o fator econômico precedeu sempre e precede sempre o direito jurídico e político. **

… Marx é um pensador econômico muito sério, muito profundo. Ele tem a grande vantagem sobre Proudhon de ser um verdadeiro materialista. Proudhon, apesar de todos os seus esforços para sacudir sa tradições do idealismo clássico, não deixou de ser por toda a sua vida um idealista incorrigível, inspirando-se, como eu lhe disse dois meses antes de sua morte, ora na Bíblia, ora no direito romano, e sempre metafísico até a raiz dos cabelos. A sua grande desgraça foi nunca ter estudado ciências naturais, e de não se ter apropriado do seu método. Ele teve instintos de gênio que lhe teriam feito entrever a via justa, mas seduzido pelos hábitos maus ou idealistas do seu espírito, retornava sempre aos seus velhos erros; o que fez com que Proudhon fosse uma contradição perpétua, um gênio vigoroso, um pensador revolucionário debatendo-se sempre contra os fantasmas do idealismo, e nunca tendo conseguido vencê-los.

Marx como pensador está na boa via. Ele estabeleceu como princípio que todas as evoluções políticas, religiosas e jurídicas, na história, são, não as causas, mas os efeitos de evoluções econômicas – é um grande e fecundo pensamento que não foi totalmente inventado por ele, foi entrevisto, em parte exprimido, por muitos além dele – mas de qualquer modo pertence-lhe a ele a honra de o ter estabelecido solidamente o de o ter posto como base de todo o seu sistema econômico. Por outro lado, Proudhon compreendeu e sentiu a liberdade muito melhor do que ele – Proudhon, quando não praticava doutrina e metafísica, tinha o verdadeiro instinto revolucionário. – Ele adorava Satanás e proclamava a anarquia. É bem possível que Marx se possa elevar teoricamente a um sistema ainda mais racional da liberdade do que Proudhon – Mas falta-lhe o instinto de Proudhon… ele é um comunista autoritário dos pés à cabeça…

…[Marx] dedicou-se sempre, com sinceridade, à causa da emancipação do proletariado, causa a que ele prestou serviços incontestáveis e à qual nunca traiu conscientemente, mas que compromete hoje com a sua formidável vaidade, com o seu caráter odioso e malévolo, e com a tendência à ditadura mesmo no seio do partido dos revolucionários socialistas. Efetivamente a sua vaidade não tem limites e é pena, é um luxo inútil, pois a vaidade compreende-se num ser nulo, que não sendo nada, quer parecer tudo. Marx tem qualidades e uma capacidade de pensamento e de ação muito grandes, muito positivas e que lhe poderiam ter pousado, parece-me, a pena de ter recorrido aos meios miseráveis da vaidade!

… [Tem também o defeito] de todos os sábios de profissão, é um doutrinário. Acredita absolutamente nas suas teorias e do alto das suas teorias despreza toda a gente.

* Fonte: http://www.autogestao.hpg.ig.com.br/bakunin1.html

** O primeiro parágrafo foi extraído de Estatismo e Anarquia e os demais de Nettlau.

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