Carta de Proudhon a Marx

Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865)
Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865)

“Investiguemos juntos, se assim vós desejais, as leis da sociedade, o modo como essas leis se realizam, o processo segundo qual nós chegaremos a descobri-las – mas, por Deus – depois de demolir todos os dogmatismos a priori. Não pensemos, por nossa vez, em doutrinar o povo, não caiamos na contradição de vosso compatriota Lutero que, após haver derrubado a teologia católica, colocou-se logo, através de esforços de anátemas e excomunhões, a criar uma teologia protestante. Há três séculos, a Alemanha está ocupada com a destruição do reboco de M. Lutero; não construamos para o gênero humano, uma nova obra com uma nova argamassa. Eu aplaudo, de todo o meu coração vossa ideia de colocar, em evidência, todas as opiniões; façamos uma boa e leal polêmica; demos ao mundo o exemplo de uma tolerância sábia e previdente, mas, porque estamos à frente do movimento, não nos tornemos os chefes de uma nova intolerância; não nos coloquemos como apóstolos de uma nova religião, mesmo que essa religião seja da lógica, da razão. Acolhamos, encorajemos todos os protestos, desonremos as exclusões, todos os misticismos; não olhemos jamais uma questão como esgotada, e quando tivermos usado até o nosso último argumento, recomecemos, se for preciso, com eloqüência e com ironia. Com essa condição eu entrarei com prazer em vossa associação – senão, não!

Embora minhas ideias, em termos de organização e da realização, estejam, no momento, paradas, pelo menos no que diz respeito aos princípios, eu creio que é meu dever, que é dever de todo socialista, conservar, por algum tempo ainda, a forma antiga e dubitativa; em uma palavra, eu faço profissão pública de um antidogmatismo econômico quase absoluto.

Eu devo, ainda, fazer algumas observações à expressão “no momento da ação”. Talvez conserveis, ainda, a opinião que nenhuma reforma é atualmente possível se, o que se chamava antes uma revolução e que não é sinceramente mais que uma agitação. Essa opinião, que eu entendo e escuso, tendo eu mesmo, durante muito tempo, dela compartilhado, confesso que meus últimos estudos me fizeram mudar completamente. Eu creio que nós não temos necessidade disso; e que, consequentemente, nós não devemos, de forma alguma, colocar a ação revolucionária como meio de reforma social, porque esse pretendido meio seria simplesmente um apelo à força, ao arbítrio; em suma, uma contradição. Eu me coloco assim o problema: fazer vir para a sociedade, através de uma combinação econômica, as riquezas que são retiradas dessa sociedade por outra combinação econômica. Em outros termos, fazer voltar à economia política a teoria da propriedade contra a propriedade, de maneira a engendrar isso que vós, socialistas alemães, chamais de comunidade, e que eu me limito, no momento, a chamar liberdade, igualdade. Ora, eu creio saber o meio de resolver, a curto prazo, esse problema: eu prefiro, pois, queimar a propriedade a fogo brando, mais do que lhe dar uma nova força, fazendo uma noite de São Bartolomeu dos proprietários…”

(Proudhon, Lyon, 17 de maio de 1846. Apud MOTTA, Fernando C. Prestes. Burocracia e Autogestão (a proposta de Proudhon). São Paulo: Brasiliense 1981, p. 50-52).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s